quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Reflexão

"Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz.
Assim ele saberá o VALOR das coisas e não o seu PREÇO"
( Max Gehringer)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ORISA OKO






Quando o mundo foi criado, ainda não existia nada plantado. Aqui morava um homem que nada fazia. Este homem se chamava Oko, o nome que ele tinha recebido do grande criador. Um dia, Olorum chamou este velho e lhe disse:

- Olho, eu criei o mundo, porém, faltam as plantações, e eu não sei com fazê-las, como plantar. Você vai ser incumbido desta tarefa.

Oko ficou sentado no chão, pensando

: - Que grande incumbência Olorum me deu! O que eu vou fazer?

Pensou, pensou, e aí se lembrou de que nas suas andanças pelas estradas tinha encontrado uma palmeira, e que embaixo dessa palmeira sempre tinha uns molequinho.Esse moleque era muito sapeca e muito sagaz, com um corpo bem reluzente. Ele estava sempre com um pedaço de pau mexendo na terra. Oko se lembrou de que um dia ele perguntou a esse rapazinho:

- Que estás a fazer?

E o rapaz lhe respondeu:

- Você não sabe que a terra mexida e plantada dá frutos?

- Plantada como? – perguntou Oko.

- É... A gente arruma semente, e tudo isso...

- Como arruma semente, se ainda não existe arvore, não existe nada? – interrompeu Oko.

O molequinho lhe disse:

- Olhe que pra Olorum Nada é difícil!

Oku ficou admirado com as palavras daqueles molequinho. Quando Olorum lhe deu essa empreitada, ele logo se lembrou de molequinho.

Voltou ao mesmo lugar e encontrou o molequinho sentado embaixo da palmeira, cavando terra. O buraco já estava maior, e daquele buraco já estava saindo uma terra mais avermelhada. Oko perguntou ao menino:

- Pôr que esta terra está saindo mais vermelha?

- É sinal de que algo de diferente existe nas profundezas da terra.

Você vê que eu estou cavando e aqui em cima a terra é mais seca; agora, esta outra parte, é mais molhada, e agora já está saindo uma parte mais densa, mais dura – respondeu o menino, mostrando a terra a Oko.

- Continue a cavar – falou Oku.

Mas enquanto o menino estava cavando, a madeirazinha que ele estava usando quebrou. Ele aí pelejou, esfregou no chão, e fez uma ponta na madeira. O menino estava descobrindo naquele momento uma ferramenta na hora em que ele raspou a madeira no chão. E com ela ele recomeçou a cavar juntos e tiraram uma lasca dessa terra, que era a pedra. Oko disse:

- Vamos fazer algo para a gente cavar a terra. Vamos ver se conseguimos qualquer coisa com aquela lasca de pedra.

O molequinho continuou a trabalhar e Oko lhe disse:

- Eu vou me embora, você veja se sozinho consegue pensar em algo mais útil pra gente trabalhar.

E foi embora, foi embora, foi embora. Foi andando e matutando pelo caminho.

No outro dia quando Oko voltou, o molequinho estava com o fogo aceso e com vários pedaços daquela pedra de fogo. Quando o moleque fez aquele fogo, ele fez também um canal saindo de dentro do fogo. No que as tais pedras iam de derretendo iam escorrendo e o menino ia formando lâminas. Assim foi criado o ferro. E sabe quem era esse molequinho? Era Ogum, o criador do ferro. Daí em diante, Orixá Oko, o grande rezador e plantador, com suas idéias sobre plantação, colheita e lavoura , e Ogum, com as suas ferramentas para ajudar a cavar a terra, o arado, o machado, a afoice e a enxada, continuaram a trabalhar juntos nas plantações que têm grande importância na criação do mundo.

Ose Dudu – Sabão Preto Africano



Ao contrário dos sabões comerciais, que são feitos de produtos químicos sintéticos, o ose dudu é muito hidratante para a pele. Isso acontece porque é feito de dendê virgem e Manteiga de Karité.

A receita básica é secular, das antigas tradições, tendo sido transmitida ao longo de gerações.


É feito de forma artesanal, não sendo encontrado em farmácias, somente em lojas específicas de produtos africanos, normalmente na forma bruta.

O Sabão preto é conhecido na África Ocidental por vários nomes, mas o mais comum é Ose Dudu, que é derivado do Anago ou línguas Yorubá da Nigéria, Benin e Togo. Significando, literalmente, sabão (ose) Preto (Dudu).

Embora conhecido como "negro", o sabão preto Africano varia de um marrom claro ao preto profundo, dependendo dos ingredientes e modo de preparação.

As cascas, folhas e vagens do cacau também são utilizadas para dar a cor característica.

O óleo usado para fazer o sabão varia de região para região, e inclui óleo de palma, óleo de palmiste, óleo de coco, manteiga de cacau e manteiga de karité. Qualquer combinação destes ingredientes é possível, e é determinado como base. Além disso, o cloreto de potássio, que é usado para fazer sabão preto africano, pode ser derivado a partir das cinzas de várias fontes vegetais, incluindo frutos do cacau, cascas de karité , folhas de bananeira e os subprodutos da produção de manteiga de karité.

O cloreto de potássio utilizado provém das cinzas de folhas de bananeira, resíduos de manteiga de karité e da casca de uma árvore local chamada Agow.

A casca é colhida de forma a não prejudicar a árvore.

O processo de elaboração do sabão é altamente sofisticado e exige a agitação das mãos, por pelo menos um dia inteiro, e um estágio de maturação (cura), por duas semanas.
 
O sabão pode ser processado por fusão , em fogo direto, com uma pequena quantidade de água. Durante esta fase de fusão, a textura do sabão se torna mais suave e há uma mudança de cor para um marrom chocolate.


O sabão derretido é então prensado em blocos, que podem ser cortados em barras para facilidade de uso.
O sabão preto é comumente feito pelas mãos de mulheres das aldeias africanas, que fazem o sabão para si e para sustentar suas famílias.

As mesmas mulheres que fazem sabão preto optam por usar apenas sabão preto em seus bebês, pois a pureza do sabão faz com que não resseque a pele. Na verdade, o sabão preto é geralmente o único sabão utilizado na maioria dos países do oeste Africano. É uma fonte natural de vitaminas A, E e ferro, ajudando a fortalecer a pele e cabelo.

Por séculos, os ganenses e nigerianos têm usado sabão preto para ajudar a aliviar a oleosidade da pele, a psoríase, a acne, as manchas claras e vários outros problemas de pele.

As mulheres africanas usam-no durante a gravidez, para mantê-las sem estrias.


Sua utilização dentro do Culto Tradicional Yorubá:

Banhos de limpeza espiritual, Afoxé (encantamento usado em um chifre),
 bem como no preparo de outras Oògùn (medicina/remédio/magia).
As magias serão preparadas da seguinte forma:

Através de uma consulta a Ifá, o Sacerdote irá identificar as causas do transtorno, e sobre ela irá intervir com tratamentos que irão atuar a nível espiritual e/ou biológico.

Após identificar quais elementos utilizar, como: ervas  e/ou plantas específicas; cascas, rezina ou favas de árvores; Minerais; Fósseis, Pele e Sangue de animais; entre outros... Ele irá misturá-los a massa base do sabão e fará, então,  um encantamento, utilizando palavras mágicas que darão poder ao sabão (Ofó), transformando-o assim num elemento mítico, com poderes de cura.

Fonte: Textos pesquisados na web

OS VEGETAIS E O RITUAL

De acordo com Forsberg (1960:125)34, a vida vegetal é um dos segmentos mais óbvios de qualquer tipo de cultura, seja ela primitiva, desenvolvida, antiga ou moderna.

Apesar de o homem não ser considerado um vegetariano, as plantas desempenham papel fundamental na sua existência material e estão sempre presentes no seu ethos. Desta forma, é essencial que uma abordagem etnológica que pretenda compreender de maneira mais efetiva uma determinada cultura, desenvolva estudo aprofundado acerca das espécies vegetais pertencentes no universo sob pesquisa e integrantes da visão de mundo do(s) grupo(s) em questão.

No contexto dos grupos Jêje-Nagô esta vida vegetal assume relevância particular, uma vez que o vegetal desempenha papel preponderante em todos os níveis da existência do égbé, definindo-se, este como “comunidades que apresentam características especiais, ocupando um determinado terreno denominado “terreiro” onde se mantém e renova a adoração das entidades sobrenaturais, os òrìsà, e dos ancestrais ilustres, os egún” (Elbein dos Santos, 1977:32).

Esta importância tem sido constantemente apontada pelos estudiosos que são unânimes em afirmar que o conhecimento das ervas e de seu emprego é objeto de sigilo, portanto, pressupondo um processo iniciático, o que, em certa medida, ocasiona o conhecimento acadêmico fragmentado.

Bastide, nas décadas de 50 e 60, foi o primeiro a dedicar atenção especial a este aspecto e a tentar uma sistematização dos dados obtidos em Salvador (BA) em terreiros Jêje-Nagô, assim como em outras localidades por ele pesquisadas. Por duas vezes este autor lança apelo à comunidade acadêmica para que desenvolva esforços para alargar os conhecimentos sobre os vegetais, como feito por Cabrera (1954) no que diz respeito aos negros cubanos: “Que Osain, deus das folhas, inspire um pesquisador brasileiro como inspirou Lydia Cabrera!” (Bastide, 1955:334) e reitera a importância da questão quando aponta claramente “a importância das ervas nos candomblés.

Ora, a questão destas ervas ainda não foi estudada. É verdade que é difícil fazê-lo, pois como disse um babalaô, o “segredo está nas ervas”. Com isso queria dizer: a) que a força mágica provinha da virtude das ervas; b) que o tratamento das ervas não podia ser revelado ao primeiro que aparecesse. A composição dos banhos, o emprego de tais ou quais plantas merece um grande cuidado. “Pois pode acontecer que a força mística seja muito forte para certos corpos; nesse caso é preciso utilizar outras ervas negativas, para enfraquecer o resultado. Ou reciprocamente. Além disso, cada orixá tem suas ervas particulares” (Bastide, 1973:105).

Este mesmo autor, destacando a relevância dos vegetais, coloca também o seu papel contestatório no quadro da escravatura: “O tã-tã que se elevará nas noites sufocantes não será destinado a pedir chuva, a prosperidade da aldeia, a grandeza da tribo, mas chamará outros mistérios para o preparo de filtros de amor que permitirão às belas mulheres negras desforrarem-se do desprezo das patroas brancas, tomando o coração de seus maridos (segundo peças de processos, sabe-se de casos em que o marido se livrou de sua esposa para dar a direção de sua propriedade a uma amante preta que o tornara louco de amor), ou preparo de venenos poderosos que enfraqueciam o cérebro dos senhores, fazendo-os

cair em inanição e morrer lentamente (chamavam-se estas plantas venenosas de “ervas para amansar os senhores”), ou ainda, para fazer abortar as mulheres grávidas para não aumentar o número de escravos”. Os vegetais, entretanto, não podem ser encarados sob este ponto de vista, eles também proporcionavam ao escravo, através de sua utilização nos ritos de iniciação, por exemplo, a construção de sua identidade e a manutenção de uma cosmovisão, que o diferenciava do grupo dominante, o que, a longo prazo, deu ensejo à constituição de comunidades próprias.

Por outro lado, o elemento branco favoreceu a manutenção do conhecimento a respeito das propriedades dos vegetais (para o grupo dominante interessava apenas o aspecto terapêutico) e delegou ao negro a tarefa de medicar-se com os recursos que possuía, i.e., a utilizar-se de sua própria fitoterapia, não desligada, entretanto, de seu conteúdo simbólico.

Cada ainda ressaltar que “Essa terapêutica ainda que possa possuir certas virtudes médicas, já testadas pela farmacologia científica, como é o caso para um número considerável de plantas, o seu grau de poder curativo está diretamente ligado ao conteúdo

mágico-religioso que se lhe empresta” (Braga, 1960:71). Todavia, para que essa eficácia se produza, torna-se necessário a observação de certos requisitos: por exemplo, a coleta de espécies. Porém, como descrito por Bastide (1978:130- 131), as espécies vegetais devem ser buscadas em locais de mato, não cultivadas, portanto, em momento propícios, e por pessoa preparada para tal fim.

Nossos informantes, além de comprovarem as afirmações acima, trouxeram-nos novos dados: o encarregado da coleta das ervas deve abster-se de relações sexuais no dia em que for apanhar as folhas; algumas moedas devem ser colocadas antes das plantas serem coletas, na entrada do mato, juntamente com um pouco de mel, de fumo de rolo e cachaça – “como pagamento para o dono das folhas” (...) “pois as plantas são muito sestrosas se não se faz as coisas direito, elas desaparecem”. Um outro informante, ao descrever um descuido seu no ritual de coleta das espécies necessárias para um determinada cerimônia. Aliás, a medicina negra coexistia com a ciência médica dos brancos (...). Em cada bairro da cidade existe um cirurgião africano, cujo consultório, bem conhecido, é instalado simplesmente à entrada de uma venda. Generoso consolador da humanidade negra, dá as suas consultas de graça, mas como os remédios recomendados contém sempre algum preparado complicado, fornece os medicamentos e cobra por eles. E finalmente, para cúmulo dos seus grandes conhecimentos, vende também talismãs curativos, sob forma de amuletos (Silva, 1981:142). disse-nos que “passei o dia inteirinho procurando tètè e não consegui encontrar nenhum, acho que foi porque esqueci de cantar direito uma cantiga...” Além do procedimento formal de coletar os vegetais de maneira adequada, o horário é também de fundamental importância. As folhas devem ser colhidas preferencialmente pela manhã, bem cedo. Caso a necessidade obrigue a coleta noturna – “será necessário “acordar a folha”, que será colocada na palma da mão, uma por uma, dando três tapinhas e dizendo três vezes “acorda””. Há, ainda, dentro do fator horário, outro aspecto a ser considerado, qual seja, a troca de pertença, i.e., a espécie muda de “senhor”, por exemplo; - “algumas folhas de Ògun quando coletadas após o meio-dia, passam a ser Èsù”. A palavra cantada ou falada assume um papel relevante: ela é portadora e desencadeadora de àse. Os grãos de Pimenta da Costa (Xilonia aethioppica, A.Rich, Anonaceae, Ba-121) que são mascados à entrada do mato se destinam a reforçar tanto o poder da fala, quanto o de coletor. “Quanto mais o àsé daquele que o transmite é poderoso, mais as palavras preferidas são atuantes e mais ativos os elementos que manipula. Para que a palavra adquira sua função dinâmica deve ser dita de maneira e em contexto determinados” (Elbein dos Santos, 1977:47). Assim, as “cantigas de folhas” – k’òrin ewé – são uma forma especial de detonar o àsé potencial das espécies vegetais. Afipà burúrú Alguns usam faca para tirar complicações:

Etiponlá wa fipá burúrú Etiponlá usa força para tirar complicações Afipá burúrú Alguns usam faca para tirar complicações Etiponlá wa fipá burúrú Etiponlá usa força para tirar complicações

Ita owo, itá omo Itá de dinheiro, ità de filho Etiponlá wa fipá burúrú Etiponlá usa força para tirar complicações

Cantar ou chamar as folhas pelas denominações corretas em yórùbá não se prende somente ao ritual de coleta das espécies; este mesmo procedimento deve ser seguido em todos os outros momentos ritualísticos nos quais as folhas estão presentes. Na lavagem de contas, obtenção de um colar consagrado ao òrìsà dono da cabeça, primeiro passo para a existência de um laço entre o indivíduo e a comunidade, i.e., ele Amaranthus viridis, L. Amaranthaceae, Ba-65. Etiponlá = Ba-21 – Boerhavia hirsuta, Willd. Linn., Nyctaginaceae (Erva Tostão). Itá = Ba-28 – Eugenia uniflora, l., Myrthaceae (Pitangueira).

Passa a integrar a categoria de ábiyán dentro da estrutura social do terreiro, as folhas utilizadas são sempre frescas e pertencentes ao seu òrìsà. O ábiyán após receber o colar (fio de contas) “tomará um banho com água que contém as folhas trituradas, a fim de lavar o sangue e o azeite com os quais está marcado, passa no corpo ori (manteiga de karité importada da África), tomando precaução para não passar na cabeça e mudará de roupa. Renovará estes banhos de folha durante três dias ao nascer do sol. Atravessou o primeiro estágio da iniciação. Dar o Bórí e consagrar o colar é a mínima das obrigações a cumprir em relação ao orixá” (Verger, 1955:291).

Bastide (1973:370) ressalta que nem sempre a lavagem de contas é realizada conjuntamente com a cerimônia do bórí, podendo esta ser feita anteriormente e sem a presença do dono do colar, o que implica numa diferente gradação de envolvimento do postulante com o grupo. A cerimônia do bórí confere uma ligação ao ábiyán, podendo se constituir em um dos momentos que antecedem e conduzem à “feitura do Santo”, quando, então, ele passa à categoria de ìyàwó, momento no qual se solidificam as relações e ele ingressa na hierarquia religiosa da Casa. Nesta ocasião são feitas as lavagens dos ótá (pedras consagradas aos òrìsà) que a partir da imersão na preparação das espécies vegetais apropriadas se transformam de simples pedras em ótá – assentamentos individuais de cada òrìsà. Estas infusões ou amassi, além de consagrarem os assentamentos, sacralizam o corpo do ìyàwó estabelecendo uma relação: ótá-corpo-òrìsà. Esta mesma preparação – amassi – se transforma em àgbó, na ocasião da feitura do Santo, quando lhe é acrescentado, além de outros elementos, o sangue dos animais sacrificados, o omí èrò – literalmente “água que acalma” – e que acompanhará o iniciado durante todo o período de reclusão.

São Gonçalinho (Ba-40) Alékèsi (literalmente “pode ser chamada”), atribuída a Òsòsí, òrìsà considerado Rei de Ketu, além de utilizada embaixo das esteiras das ìyàwó e como cobertura do chão do barracão nas festas, é uma das “folhas” que entram na composição de àgbó.

Cabe ressaltar que os vegetais não estão apenas presentes nas preparações acima mencionadas, eles também fazem parte da alimentação do ìyàwó, dos temperos a ela. Primeira categoria do iniciado, surgindo após a lavagem ritual dos colares e da “comida à cabeça” (bori).

Categoria do iniciado, que surge após o período de reclusão, denominado “feitura de Santo”.

Lápine (1982:37) pormenoriza as comidas e respectivos condimentos. Adicionados, das comidas de Santo oferecidas ao òrìsà – “comidas secas” para distinguí-las das oferendas que levam o sangue de animais. Além disso, estão presentes em diversas situações, por exemplo, são colocadas folhas, embaixo das esteiras do ìyàwó (Alékèsì, Casaina sylvestre, Sw., Flacourtiaceae, São Gonçalinho, Ba-40) e mais outras pertencentes ao òrìsà de iniciado; nos quartos de Santo; no barracão por ocasião das festas, sendo que constituem um reservatório natural dentro do égbé, o que foi denominado de “espaço-mato” por Elbein dos Santos (1977:33), representação da floresta africana.

Nas ocasiões em que é necessário um rito de purificação – no corpo ou na casa de membros da comunidade – é realizada uma cerimônia denominada “sacudimento” que tem por finalidade “limpar”, i.e., purificá-los ritualmente. É interessante notar que, além do emprego de folhas verdes, frescas, as espécies vegetais podem aparecer sob a forma de comidas – acarajé, canjica, acaçá, etc. – assim como podem ser produtos industrializados – feijões, farinhas, fumo (cigarro, charutos), azeites, doce e de dendê, etc.

Da maior relevância ainda é a presença de vegetais no poste central do barracão ou, se por ventura ele não existe, no local onde está “plantado” o àsé da Casa. “O axé do candomblé deve condensar todos os axé, exatamente como o terreiro é um resumo de todo o território nagô. Geralmente, o que será enterrado sob o poste central ou mastro litúrgico, será então a “água dos axé (...) o líquido que contém um pouco do sangue de todos os animais sacrificados, cada divindade tendo seus animais obrigatórios, assim como também um pouco de todas as ervas que pertencem aos diversos orixá (Bastide, 1978:71).

De acordo com Woortmann (1978:42) o poste central ou o local onde está “plantado” o àsé é a ponte que estabelece a ligação entre o mundo dos òrìsà e o dos humanos.

O vegetal, por conseguinte, é vivenciado em todos os contextos rituais, podendo-se considerar a relação homem/vegetal como fundamental na visão de mundo Jêje-Nagô.

 
FONTE:  "Ewe Oosanyin" (material disponibilizado na Web, mas sem autoria)

ISURE ÒRÌSÀ OYA:




ISURE ÒRÌSÀ OYA:
IBA OYA

AYABA OBAKOSO,
ODO KUN KO KUN, KO SI
ENITI OYA KO LE GBE LO,
MAA JEKI ODO GBE MI LO,
MAA JEKI NKU IKU INA,
IYA MI BOROKINNI,
JOWO EMI NFE ORO LATI
ODO RE,
EMI NFE ALAFIA,
EMI NFE ILERA,
EMI NFE ILOSIWAÚU,
IYAWO ONIBON-ORUN, JOWO SOMI DI OLORO.
ÀSE TI ELEDUNMARE
ELEDUNMARE ÀSE.


Oya eu te saúdo.
Esposa do Obakoso (Sòngó).
O rio enche ou não, não há ninguém que Oya não leve,
Não deixe o rio me levar.
Não me deixe morrer afogado,
Não me deixe morrer no fogo,
Minha mãe é bonita,
Eu quero prosperidade de você,
Eu quero paz,
Eu quero saúde,
Eu quero progresso,
Esposa de dono da voz do céu (Sòngó),
Favor, faça-me rico.
Axé do Senhor Supremo.
Benção do Senhor Supremo.

A Galinha d'angola


Naquele tempo, a galinha d’Angola era inteiramente preta e vivia só e infeliz dentro da mata.

Para resolver seus problemas de solidão, foi consultar o adivinho de Obatalá, sendo completamente preto, não poderia entrar numa casa onde o Orixá do Branco era cultuado, pois cor preta era considerada como uma grande ofensa.

Desolado o bicho que apesar de viver só era muito rico, reuniu uma grande quantidade de alimentos e saiu sem rumo, na esperança de encontrar, em outro lugar qualquer, alguém que lhe fizesse companhia.

Depois de muito caminhar, encontrou numa clareira, um velho muito estropiado que gemendo, estendeu-lhe as mãos dizendo:

“Dá-me um pouco de comida e de água pois estou exausto e já não posso conseguir alimento para minha própria sobrevivência”.

Condoído, Etu serviu de seu próprio alimento ao velho e saciou-lhe a sede com a água que trazia dentro de uma cabaça.

Logo que acabou de comer, o pobre velho, de tão enfraquecido, caiu em sono profundo e, ao despertar muitas horas depois, deparou com Etu que preocupado, velava por seu sono.

Já refeito, o velho perguntou:
“Que fazes sozinho no interior desta floresta? Não sabes por acaso que ela é sagrada e que só os iniciados podem penetrá-la?“

“Ando sem destino. Nasci só e sempre vivi só. Minha aparência é muito repugnante e minha feitura impede que as pessoas permitem que me aproxime delas!” Replicou a ave.

“Tua feitura exterior nada é, comparada com tua beleza interior. Aproxima-te mais e, como recompensa pela tua bondade, modificarei um pouco a tua aparência!”    

Pegando pó de efun, o velho que outro não era que o próprio Obatalá, soprou sobre o corpo de Etu, deixando-o, a partir de então, todo pintado. Reunindo alguns elementos sagrados, modelou um cone que colocou no alto de sua cabeça dizendo:

“A partir de hoje, serás o animal mais importante na religião dos Orixás, Nada poderá ser feito sem tua colaboração e como sinal desta importância, serás o único dentre os seres vivos a portar o oshu, símbolo da aliança formalizada entre o iniciado e seu Orixá. Possuirás além disto, tantas fêmeas quantas quiseres e tua prole será numerosa e se espalhará por sobre a Terra”.

Por este motivo a galinha d’Angola possui o corpo coberto de pintinhas brancas e carrega sobre a cabeça uma crista de forma cônica, assemelhando-se ao iniciado durante o ritual de iniciação. Sua presença em todas as cerimônias iniciáticas é indispensável e todos os Orixás a exigem em seus rituais.
(ITAN TI ODÙ OFUN)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Iyabasé



O segredo desta culinária é comandado pela guardiã da cozinha, a Iyabasé.
Aquela que “muito faz e pouco fala.” Quando se fala da sacerdotisa da comida, as formas mais antigas de transmissão do conhecimento trazida pelas diversas etnias africanas vão ser evocadas: a observação e a convivência. E o mestre dos mestres será mais uma vez chamado: o tempo. O conhecimento ritual, o respeito, a criatividade e o comando apresentam-se como o perfil da Iyabasé e orientam à sua escolha, mesmo que, hoje, nos “novos tempos,” poucas sejam as mulheres que se disponham a tal cargo; não pelo gosto, mas pelas funções assumidas por elas na sociedade.
A imagem da Iyabasé apresentada pelos sacerdotes, remonta aos primórdios, quando Olodumaré, Deus, entregou o poder de criar e de tudo transformar às Grandes Mães. A velha que cozinha, divide, assim com o poder ancestral feminino esta força, assim como todas as mulheres. Daí recair sobre ela o tabu da impureza, que reflete as relações de poder, as tensões entre homem e mulher expressas em alguns mitos da sociedade yorubá, num ambiente onde embora sua função seja de procriar, ela goza de plena liberdade e independência dentro do grupo. Permitir que a mulher menstruada manipule a comida é expor toda a comunidade ao poder das Mães Ancestrais, que serve tanto para o bem, quanto para o mal. A Iyabasé é, uma das pessoas que no terreiro, mais expressa essa força, pois trabalha com ela dia e noite, ao manipular a colher de pau para transformar grãos e alimentar tudo e todos, conservando, recriando e inventando.

Oriki Osahyin


Agbénigi, òròmodìe abìdi sónsó
Aquele que vive nas árvores e que tem um rabo pontudo como estaca.
Esinsin abedo kínníkínni;
Aquele que tem o fígado trasparente como o da mosca.
Kòògo egbòrò irín
Aquele que é tão forte quanto uma barra de ferro.
Aképè nigbà òràn kò sunwòn
Aquele que é invocado quando as coisas não estão bem.
Tíotio tin, ó gbà aso òkùnrùn ta gìègìè.
O esbelto que quando recebe a roupa da doença se move como se fosse cair.
Elésè kan jù elésè méjì lo.
O que tem uma só perna e é mais poderoso que os que têm duas.
Ewé gbogbo kíki oògùn
Todas as folhas têm viscosidade que se tornam remédio.
Àgbénigi, èsìsì kosùn
Àgbénigi, o deus que usa palha.
Agogo nla se erpe agbára
O grande sino de ferro que soa poderosamente.
Ó gbà wón là tán, wón dúpé téniténi
A quem as pessoas agradecem sem reservas depois que ele humilha as doenças.
Aròni já si kòtò di oògùn máyà
Àròni que pula no poço com amuletos em seu peito.
Elésè kan ti ó lé elése méjì sáré
O homem de uma perna que exita os de duas pernas para correr.

BANBOSE OBITIKO




Embora os cultos africanos fossem terminantemente proibidos na Bahia de outrora - a liberação definitiva só foi assinada pelo governador Roberto Santos, em 1976 - a presença do candomblé na Barroquinha conviveu com a passagem de alguns governos, uns mais permissivos, como o do famoso Conde dos Arcos; outros mais intransigentes, a exemplo do temido Conde da Ponte. Em qualquer caso, todos os rituais eram feitos às escondidas, ou pelo menos disfarçados pelo sincretismo religioso que ganhava força na Velha Bahia. As duas principais festas comemorativas da fundação do candomblé fazem referências aos orixás mais venerados: Oxóssi, o senhor da terra, e Xangô, o regente da casa. A primeira acontece no dia de Corpus Cristhi, e a segunda no dia de São Pedro, datas em que não seriam necessários maiores pretextos para os banquetes africanos e a batida dos tambores.
Quando as festas para os orixás não eram mascaradas pelo sincretismo, os rituais religiosos eram praticados em segredo absoluto para escapar da repressão. Reza a tradição iorubá que, para realizar o culto de Xangô em sigilo, os adeptos da Casa Branca construíram uma passagem secreta sob uma árvore oca, atingida por um raio. Lá, os altares sagrados poderiam ser cultuados e as oferendas realizadas de maneira discreta e preservada. Segundo contam, o subterrâneo secreto deixou de existir, assim como outros que haveria por ali, quando o terreno foi aplainado e as árvores sagradas extraídas, durante a reforma da área.
Ataque policial
No centro da cidade, o terreiro ficava próximo ao Palácio dos Governadores, ao Mosteiro de São Bento e ainda do Solar do Berquó, na época residência de um dos desembargadores do Tribunal da Relação. Temendo um ataque policial, as sacerdotisas arrendaram as terras do Engenho Velho, longe do governo central. Mas, segundo Pierre Verger, estudioso do assunto, antes de chegar na Avenida Vasco da Gama, onde ainda se encontra, o terreiro mudou-se por diversas vezes, "passando inclusive pelo Calabar, na Baixa de São Lourenço". Depois desse episódio, todos os templos africanos seriam construídos nos arredores da antiga Salvador, onde as cerimônias poderiam ser realizadas de maneira mais discreta.
Foi durante o governo do Visconde de São Lourenço, entre 1848 e 1852, que os negros da Casa Branca seriam de uma vez por todas expulsos da Barroquinha. Em 1851, a "modernidade" chegou à capital, com a urbanização da área e pavimentação da Baixa dos Sapateiros, antiga Rua da Vala, por onde esgotos corriam a céu aberto. Alguns anos antes, vários levantes de escravos foram deflagrados em Salvador, até que em 1835 se deu a sangrenta Revolta dos Malês, organizada pelos negros muçulmanos. Era mais um pretexto para desmobilizar os encontros entre os africanos na Bahia.
Iyá Nassô, tida ainda hoje como a principal matriarca da história do terreiro, partiu com os seus súditos para plantar o axé na então distante roça do Engenho Velho, "no Rio Vermelho de baixo". Dizem que foi o lendário babalaô Bamboxê Obticô, avô do saudoso Felizberto Sowzer, uma figura importante na reconstituição dos cultos e rituais perdidos no tempo. Sobre iyá Nassô, se sabe que ela morava na Rua das Flores, no Pelourinho, e era comerciante de carnes no Mercado de Santa Bárbara.
Mas, já no Engenho Velho, as autoridades novamente tentaram calar os tambores e cânticos africanos da Casa Branca. Uma reportagem publicada no antigo Jornal da Bahia, de 3 de maio de 1855, faz alusão a uma reunião na casa de iyá Nassô que teria sido interrompida por uma diligência policial: "Foram presos e colocados à disposição da polícia Cristovão Francisco Tavares, africano emancipado, Maria Salomé, Joana Francisca, Leopoldina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, crioulos livres; os escravos Rodolfo Araújo Sá Barreto, mulato; Melônio, crioulo, e as africanas Maria Tereza, Benedita, Silvana... que estavam no local chamado Engenho Velho, numa reunião que chamavam de candomblé".

"Mãe destruidora, hoje te glorifico:




"Mãe destruidora, hoje te glorifico:

O velho pássaro não se aqueceu no fogo.
O pássaro doente não se aqueceu ao sol.
Algo secreto foi escondido na casa da Mãe...
Honras a minha Mãe!
Mãe cuja vagina atemoriza a todos.
Mães cujos pêlos púbicos se enroscam em nós.
Mãe que arma uma cilada, arma uma cilada.
Mãe que tem montes de comida em casa"
“Mãe toda poderosa, mãe do pássaro da noite (...)
Grande mãe com quem não ousamos coabitar
Grande mãe cujo corpo não ousamos olhar
Mãe de belezas secretas
Mãe que esvazia a taça
Que fala grosso como homem,
Grande, muito grande mãe no topo da árvore iroko,
Mãe que sobe alto e olha para a terra
Mãe que mata o marido mas dele tem pena......

Eu sou o grande oceano do Útero divino.
Os cursos d'agua da terra respondem aos meus reflexos em movimento.
Eu permito que a luz mágica da minha lua ilumine meu caminho interior para o lugar em que
a sede de minha alma é saciada. Eu sinto, eu sonho, imagino e abro-me para o espírito da órbita
feminina de luz que envolve minha alma na doçura luminosa da noite!"
Sou qualquer verso de Clarice. As ruas descritas de J.Joyce. A tempestade de fim de estação!
Uma borboleta mutante, que voa, que morre, que renasce...
Uma Velha Aranha Tecedeira que trama e tece os fios da vida e novas redes
Vivo as faces da deusa, respeito e aprendo com meus ancestrais.
ouço o som do silêncio e danço!"